Incêndio deixa cinco mil operários desalojados na usina de Jirau, em Rondônia



Durante a madrugada desta terça (3), dezenas de trabalhadores com malas, mochilas, televisores e colchões caminhavam pelo acostamento da BR-364, estrada que leva à hidrelétrica de Jirau, em Rondônia. Outros se reuniam diante da porta da usina ainda perplexos com o incêndio que destruía 37 dos 59 alojamentos da margem direita do rio Madeira. Não há confirmação de feridos.
Neste momento, os cerca de cinco mil operários desabrigados desembarcam no ginásio do SESI, em Porto Velho, onde passarão por um processo de triagem para informar se desejam continuar na obra ou se preferem retornar ao estado de origem. O consórcio Energia Sustentável do Brasil (ESBR), responsável pela construção da hidrelétrica, comprometeu-se a custear o retorno.
Por volta das três horas da manhã, representantes da CUT, da Conticom (Confederação dos Trabalhadores na Indústria da Construção e Madeira) e do Sticcero (Sindicato dos Trabalhadores na Indústria da Construção Civil de Rondônia) chegaram ao canteiro para dar apoio ao pessoal e destacaram o clima de conflito que pairava sobre o local desde a assembleia do dia anterior.
“Havia um pequeno grupo disposto a causar tensão e cabia ao consórcio cuidar da segurança”, afirma Raimundo Enelcio Pereira, diretor de ação sindical do Sticcero.
O dirigente refere-se a um grupo muito reduzido de pessoas insatisfeitas com a decisão da esmagadora maioria de retornar ao trabalho, após assembleia na manhã de ontem definir aceitar a proposta do consórcio. A categoria arrancou um aumento salarial antecipado de 7% e elevação do vale alimentação para R$ 220 destinados a quem recebe até R$ 1.500. Os demais, menos de 20% do pessoal, terão reajuste de 5% e R$ 200 de vale.
O acordo foi costurado depois que trabalhadores da Enesa Engenheira, terceirizada contratada pelo ESBR paralisar as atividades por conta das precárias condições nos alojamentos em 9 de março. Três dias depois, todo o canteiro resolveu cruzar os braços. No dia 26, operários da usina de Santo Antônio, também em Rondônia, optaram por iniciar um movimento, que terminou ontem, após a realização de duas assembleias.
“Nós cumprimos a nossa parte de voltar às atividades. Porém, o consórcio pecou ao não garantir as condições para que os trabalhos seguissem tranquilamente”, acredita o presidente da Conticom, Cláudio Gomes.
Maioria sem rumo
Segundo o relato de alguns trabalhadores, por volta das 21h de ontem esse pequeno contingente começou a atear fogo no matagal. A seguir, passou para as lixeiras e, já no início da madrugada, partiram para os alojamentos.
O fato intrigante é que mesmo com a presença da Força Nacional e da Companhia Estadual de Operações Estaduais em Jirau, os ataques tomaram proporções gigantescas.
Por enquanto, a previsão é que a hidrelétrica mantenha as atividades, principalmente na margem esquerda, parte do canteiro que não foi afetada.
O carpinteiro Tamayk Neri, que deixou a cidade de Tucuruí, no Pará, demonstrava aflição por ter perdido todos os pertences. Apesar de afastado por conta de um acidente com um ônibus da empresa em que afirma ter cortado os tendões, ele permanecia no alojamento. “O médico disse que eu tenho síndrome do (Túnel) carpo e me jogaram para o INSS, com auxílio doença. Não me deu a CAT (comunicação de acidente de trabalho) e eu estou sem estabilidade. E agora, para onde é que eu vou?”, perguntava a si mesmo.
Vestido apenas com uma calça jeans, o piauiense Francisco da Silva, há oito meses na obra, estava na casa de força quando o incêndio tomou conta dos alojamentos. Ao retornar do serviço, por volta das 3h, encontrou tudo queimado. “Perdi documento, tudo. Agora eu vou ter que voltar pra casa, né?“, refletiu, desolado.
Enquanto a resposta não vem, CUT, Conticom e Sticcero acompanham o atendimento aos operários.
Por: CUT

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